A Verdade Incômoda Sobre o Alzheimer

Quando alguém recebe o diagnóstico de Alzheimer, a gente pensa que a doença é o único vilão. Que o declínio é inevitável e linear. Que não há nada a fazer.

Porem ao logo de 30 anos percebi algo que as famílias não se atentavam. Que as atitudes do cuidador podem acelerar ou desacelerar os sintomas. Não é que você vá curar a doença. Mas você pode fazer com que seu familiar viva melhor ou pior. Com mais clareza ou mais confusão. Com mais dignidade ou mais medo.

A ciência é clara sobre isso. Pessoas com Alzheimer em ambientes de confronto, correção constante e caos têm sintomas piores. Pessoas com Alzheimer em ambientes de calma, validação e estrutura têm sintomas melhores.

Você não está apenas observando o Alzheimer. Você está moldando como ele se manifesta.

As Atitudes Que Pioram o Alzheimer sem a Família Perceber

1. Falar mais alto quando ele não entende

Você repete a mesma coisa, cada vez mais alto, esperando que ele "escute melhor". Mas o problema não é nos ouvidos. É no cérebro. E gritar não melhora a compreensão. Pelo contrário: aumenta o medo, a tensão e a confusão.

O que fazer: Fale devagar, com clareza, em tom normal. Use gestos. Dê tempo para ele processar.

2. Corrigir constantemente

"Você já falou isso." "Não foi assim." "Você está errado." "Você deveria lembrar."

Cada correção é uma mensagem: "Você está errado. Você é incapaz." E a pessoa começa a acreditar nisso. A ansiedade aumenta. A confusão aumenta. A vontade de participar diminui.

O que fazer: Valide o que ele sente, mesmo que não seja "correto". Se ele acha que é terça-feira e é segunda, não importa. Vá com ele. "Que legal, você lembrou de terça-feira!"

3. Pressionar para lembrar

"Tenta lembrar." "Você sabe!" "Vem, faz um esforço."

Frases assim aumentam o estresse. O cérebro não "força" a memória. Quanto mais você pressiona, mais a pessoa fica ansiosa e menos consegue acessar o que ainda lembra.

O que fazer: Se ele não lembra, está tudo bem. Conte a história novamente, como se fosse a primeira vez. Ele pode não lembrar, mas pode aproveitar o momento.

4. Mudanças bruscas de ambiente ou rotina

Mudar de quarto. Reorganizar a casa. Alterar horários. Tudo isso causa desorientação, agitação e episódios de confusão.

O cérebro com Alzheimer funciona melhor com previsibilidade. A rotina não é chata, é terapêutica.

O que fazer: Mantenha a rotina o máximo possível. Se precisa mudar algo, faça gradualmente. Prepare o ambiente para ser reconhecível.

5. Falar sobre o idoso como se ele não estivesse presente

"Ele não entende mais." "Ele não lembra de nada." "Ele é como uma criança."

Mesmo com limitações, ele percebe o tom. Ele percebe que está sendo excluído. Isso aumenta a sensação de insegurança e abandono.

O que fazer: Fale com ele, não sobre ele. Inclua-o nas conversas. Mesmo que ele não responda, ele está ouvindo.

6. Deixar ele ocioso por longos períodos

Sem estímulos, sem atividades, sem propósito. A mente fica vazia. E a confusão e a apatia aumentam.

Atividades simples como uma conversa, um jogo, uma tarefa fazem uma diferença enorme.

O que fazer: Ofereça atividades simples e significativas. Não precisa ser complexo. Uma caminhada, ouvir música, ajudar em uma tarefa simples.

7. Ambientes caóticos ou muito estimulantes

Barulho demais. Muita gente. Muita luz. Muita informação.

Tudo isso sobrecarrega um cérebro que já está tendo dificuldade de processar. O resultado é irritabilidade, confusão e agitação.

O que fazer: Crie ambientes calmos. Reduza barulho e distrações. Mantenha a iluminação suave. Limite o número de pessoas ao mesmo tempo.

8. Ignorar sinais de cansaço ou sobrecarga sensorial

Quando o idoso está cansado, tudo piora: memória, humor, orientação, comportamento. Um idoso cansado é um idoso confuso.

O que fazer: Observe os sinais de cansaço. Permita descanso. Não force atividades quando ele está esgotado.

9. Forçar ação quando ele está ansioso

"Vamos tomar banho." "Vamos comer." Mas ele está ansioso, assustado, resistindo.

Forçar só aumenta a ansiedade. A capacidade de cooperação diminui ainda mais.

O que fazer: Quando ele está ansioso, primeiro acalme-o. Espere. Valide o sentimento. Depois, tente novamente com calma.

Mudando a Perspectiva

Você cria e tem o poder de influenciar o ambiente em que a doença se manifesta.

Ao gritar, corrigir, confrontar, criar caos, você está alimentando os sintomas. Você está fazendo com que o Alzheimer piore.

Mas ao validar, criar estrutura, manter a calma e oferecer segurança, você está criando um ambiente onde os sintomas são menos intensos. Onde a pessoa vive melhor. Onde a doença não a consome completamente.

Você tem mais poder do que pensa.

Desafio da semana:

Observe quais dessas atitudes você, e outras pessoas da família, costumam ter no dia a dia. Escolha pelo menos uma para fazer de forma diferente nesta semana. Preste atenção no que muda e, se puder, anote essas percepções e compartilhe comigo no meu Instagram.

Não tente mudar tudo de uma vez. Aliás, isso é até desaconselhável. Mudanças reais acontecem aos poucos: uma atitude por vez. É assim que a relação vai se transformando, passo a passo.

Lembre-se você não esta sozinha

Dr. Telmo Diniz

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