Uma História

Se você conhece Shakespeare, conhece Hamlet, mas há uma personagem que é o foco da nossa análise: Ofélia.
Ofélia era uma jovem controlada por todos ao seu redor. Seu pai controlava suas ações, seu namorado, Hamlet, controlava suas emoções. Ninguém perguntava o que ela queria, ninguém a deixava fazer escolhas.
Ela existia apenas para obedecer.
Quando seu pai morre, Ofélia perde o controle e ao ser rejeitada por Hamlet, ela perde a razão. Não porque era fraca, mas porque nunca havia aprendido a viver por si mesma. Nunca havia desenvolvido a capacidade de lidar com a vida, porque ninguém nunca havia deixado ela tentar.
No final da peça, Ofélia morre afogada em um rio. Alguns dizem que foi acidente. Outros, que foi suicídio, mas a verdade é que ela já estava morta muito antes. Havia perdido o propósito, a vontade, a capacidade de existir.
A história de Ofélia é a história do que acontece quando cuidamos demais. Quando controlamos demais. Quando não deixamos a pessoa ser quem ela é.
Esse é um erro que já vi sendo cometido muitas vezes por quem cuida, um erro que destrói a relação da família e a saúde emocional do idoso.
Talvez você pegou aquele copo de água que seu pai poderia pegar. Escolheu a roupa que sua mãe poderia escolher. Respondeu a pergunta que ela poderia responder.
E pensou: "Estou ajudando. Estou cuidando bem."
Mas cada vez que você faz algo que seu familiar ainda consegue fazer, você está acelerando a perda da capacidade dele. Você está construindo uma prisão invisível ao seu redor.
Quando Ajudar Vira um Problema

A autonomia e a independência não são a mesma coisa.
Autonomia é a capacidade de tomar decisões, de gerenciar sua própria vida. Independência é a capacidade de fazer as coisas com seu próprio corpo.
Um idoso pode perder independência (não conseguir mais caminhar sozinho por exemplo) mas manter autonomia (decidir aonde quer ir).
Quando você faz tudo pelo seu familiar, você está roubando dele a autonomia. E a autonomia é o que mantém uma pessoa viva, digna e com propósito.
O que acontece quando você tira a autonomia? A pessoa começa a se sentir incapaz.
Essa sensação de incapacidade leva à depressão, a depressão leva ao isolamento e o isolamento leva à aceleração do declínio cognitivo . É uma espiral descendente que você cria com as melhores intenções.
Além disso, quando você faz tudo, você está enviando uma mensagem silenciosa mas poderosa: "Você não consegue mais. Você não é mais capaz."
E o idoso começa a acreditar nisso, minando não só a sua percepção e capacidade, mas também a sua relação com ele.
O Equilíbrio Entre Segurança e Dignidade
Existe um conceito que chamo de "dignidade no risco". Significa que damos às pessoas a dignidade de poderem fazer uma escolha, mesmo que isso possa ter riscos. Significa que deixamos elas tentarem, mesmo que possam falhar.
Aqui está o que você pode fazer diferente:
Identifique o que seu familiar ainda consegue fazer. Mesmo que lentamente, mesmo que com dificuldade. Faça uma lista mental: ele consegue pegar um copo? Consegue escolher a roupa? Consegue tomar decisões sobre sua própria vida?
Deixe ele fazer, mesmo que demore mais, mesmo que ele faça de forma diferente da sua, mesmo que ele erre. A cada vez que ele faz, a sensação é: "Eu ainda sou capaz. Eu ainda existo."
Ofereça ajuda, antes de fazer. Pergunte: "Você quer ajuda?" ao invés de simplesmente fazer. Deixe ele pedir. Deixe ele decidir quando precisa de ajuda.
Celebre as pequenas coisas. Quando ele consegue fazer algo sozinho, reconheça. "Sua roupa esta linda hoje mãe!" Isso reforça a capacidade, não a incapacidade.
Estabeleça limites de segurança, não limites de capacidade. Se ele quer fazer algo que pode colocá-lo em risco (como cozinhar sozinho quando há risco de queimadura), você pode oferecer uma alternativa segura: "Vamos cozinhar juntos?" Mas não tire dela a oportunidade de participar.
O Resultado Real
Quando você muda essa dinâmica, algo mágico acontece. Seu familiar começa a se sentir útil novamente. Começa a tomar decisões. Começa a ter propósito. E a relação entre vocês muda. Não é mais uma relação de "cuidador e dependente". É uma relação de duas pessoas que se respeitam.
E você deixa de carregar o peso de estar fazendo tudo. Porque você não está mais fazendo tudo. Você está permitindo que ele faça o que ainda consegue fazer.
Desafio e Convite

Tente aplicar pelo menos uma estratégia que você tenha aprendido nessa edição durante um tempo, perceba as mudanças e as dificuldades e me conte no Instagram como foi, vou adorar saber a sua experiência.
E caso você queira ter acesso as melhores estratégias no cuidado de idosos e ainda estar próxima de outras filhas cuidadoras, clique no botão abaixo e venha fazer parte da Comunidade Filhas que Cuidam.
Lembre-se você não esta sozinha
Dr. Telmo Diniz


